No dia 1 de Junho, a nossa escola recebeu a visita da Dra. Teresa Calçada, Coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares, que aproveitou para “espreitar” o novo visual da biblioteca, já com o mobiliário adquirido com a comparticipação da RBE e o aumento do espaço a que a escola se comprometeu aquando da visita que anteriormente realizou à nossa escola. Segue-se uma entrevista feita à Dr.ª Teresa Calçada pelos alunos do Clube de Jornalismo.
– Como é que surgiu a coordenar as bibliotecas escolares do País?
- Olha, claro que tive de ser convidada por um governante, que na altura era o Ministro da Educação, o Professor Marçal Grilo, mas de algum modo fui convidada porque já trabalhava há alguns anos em bibliotecas, há bastantes anos! Eu era uma defensora de que as bibliotecas municipais (daqui a algum tempo também vão ter uma) e as bibliotecas escolares fossem amigas, que pensassem em conjunto, que se organizassem para que em todos os concelhos houvesse uma rede de conhecimento. Como eu tinha essa ideia, fui convidada, aceitei e, imagina, uma coisa extraordinária em Portugal, estou há 14 anos a fazer a mesma coisa, não sei se bem se mal, mas o melhor que eu sei e posso.
– Presumimos que aprecia essas funções. O que mais a motiva?
- Sim, eu gosto de fazer o que faço. Tenho essa vantagem, de ser paga para trabalhar e ainda por cima gostar de trabalhar no que trabalho, portanto, isso é sempre um privilégio, porque se trabalha muito melhor quando se gosta do que se faz. Mas, vou dizer-te por que é que eu faço isto, não só há 14 anos em bibliotecas escolares, como 10 anos antes tinha estado a fazer municipais, como há muitos anos, quando fui professora de Filosofia, me ocupava da biblioteca do Liceu onde fui professora. É porque eu acho que ler é melhor do que não ler, e todas as pessoas, quando sabem ler, não importa se são revistas, se são livros, se são multimédia, digital ou analógico, ser capaz de ler, compreender, interpretar, escolher aquilo que a gente lê, dá mais conhecimento e o conhecimento é aquilo que nos torna livres, porque eu não acho que sejam abençoados os que são ignorantes, eu acho que são pobres os que são ignorantes, e portanto, eu acredito que nós somos menos ignorantes, mais senhores do nosso destino.
– É licenciada em Filosofia. Porquê Filosofia? Já foi professora desta disciplina?
- Sou. Olha, eu gosto e sempre gostei da Filosofia, mas, realmente, a influência, quando era para aí da vossa idade, um bocadinho mais velha talvez, foi de uma professora. Eu até estava a estudar para Português – Francês e depois, no meu 7º ano, que corresponde hoje ao vosso 11º ano, tive uma extraordinária professora de Filosofia. Na altura, a Filosofia era uma disciplina obrigatória e eu gostei tanto do que ela ensinava e tanto do que eu acreditei que era a Filosofia, que no fundo era saber para que é que serve a vida, o que é viver, o que é que é o bem, o que é que é o mal, o que é que está certo, o que é que está errado, que mudei para o Curso de Filosofia. E aqui estou! Ainda hoje continuo a ler imensas coisas de Filosofia e até te digo mais: se hoje deixasse de estar a trabalhar, assim, como estou ainda, o que eu gostava de fazer mesmo era ensinar Filosofia aos meninos da escola primária. Ainda hei-de fazer isso!
– Sente saudades do tempo em que era professora?
- Às vezes sinto. Já deixei de ser professora há muitos anos. Olha, eu fui professora entre os 20 e os 28 anos, já lá vão, portanto, 30 anos, mas às vezes tenho saudades de discutir com os meus alunos quando há questões muito importantes, por exemplo, como é agora esta crise ou a crise da Europa ou quando há grandes problemas que atravessam o mundo, ou por exemplo pensar se vocês são diferentes, se a vossa cabeça é diferente pelo facto de serem digitais, de já pensarem com cliques, com botões, com computadores, com ebooks, com aparelhos destes (gravador), o que é que vos distingue, o que é que isso representa na maneira como se pensa a vida, por exemplo. Isso eram temas que eu gostava de discutir com os meus alunos. Ou como é que hoje se vive a vida emocional, a vida sexual, essas coisas eu gostava muito de discutir com os meus alunos, coisa que fazia sempre na base de livros. Sempre que nós discutíamos um tema, havia sempre um livro, que mais ou menos líamos em conjunto. Já lá vão 30 anos e eu tenho saudade da controvérsia. Tenho, às vezes tenho.
– Julgamos que aprecia a leitura. É um dos seus passatempos preferidos?
- Eu aprecio, e mais do que apreciar, eu necessito. É uma espécie de forma de ser. Eu não imagino qualquer pessoa sem ler. É um passatempo, mas já nem o distingo de mim, quer dizer, é um passatempo e uma maneira de viver, percebes? Eu, em qualquer circunstância, leio, é assim como respirar, como a gente vestir-se e despir-se, é uma maneira de estar na vida! Ler é uma condição de ser, para mim.
– Que livro mais a marcou? Porquê?
- Essa é que é uma pergunta difícil, muito difícil, porque os livros marcam-nos de acordo com o momento da vida que nós vivemos, porque, e vocês se calhar já experimentaram isso, e então com o crescimento vão experimentando, há uma altura em que nós lemos um livro e esse livro se torna muito importante para nós porque estamos a viver um momento da nossa vida em que aquele livro ou nos dá uma resposta ou nos ajuda a encontrar soluções. Portanto, nós próprios vamos mudando e os livros não são sempre os mesmos. Mas, se eu tivesse que escolher de todos, todos, para te dizer agora aqui, neste momento, eu se calhar escolhia um livro chamado “A Montanha Mágica”, que, se calhar, nem há na vossa biblioteca, e que por acaso também eu usava como um exercício com os meus alunos quando eu fui professora de Filosofia. Eu queria sempre, ao fim de cada ano, conseguir que pelo menos um aluno meu, porventura o melhor dos meus alunos, ao fim do ano lesse também “A Montanha Mágica”. E eu tive sempre o privilégio de conseguir que pelo menos um deles o fizesse e isso já era uma imensa vitória, porque é um livro muito, muito grande, mas foi talvez um dos livros que me marcou. Depois, acho que me ensinou muito e ainda me ensina hoje, aliás, já li duas vezes na vida, uma vez há mais anos e agora há não muito pouco tempo, porque foi traduzido em português, um livro também igualmente grande, (eu gosto de livros de ficção grandes) em três volumes, que é “O Homem sem Qualidades”. São livros muito importantes na minha vida. De vez em quando, quando preciso de pensar alguma coisa, volto lá.
– Que escritores mais a seduzem, em Portugal e no mundo?
- Olha, eu acabei de falar do “Homem sem Qualidades” de um grande escritor chamado Musil. Eu li muita literatura, aquilo que era considerado no meu tempo “os clássicos”, muita literatura francesa, traduzida e também alguns no original. Sou uma leitora que gosta de ler livros de todo o mundo. Gosto muito da literatura alemã, gosto de uma maneira mais seca, menos romântica de escrever, mas li livros de todo o lado. Não sou uma grande leitora de literatura latino-americana, não me perguntes porquê, não sou uma leitora de livros com muita acção, sou uma leitora de livros de pensamento que me aproximam mais da Filosofia do que propriamente de estórias. Neste momento, tenho um autor de eleição que se chama Philip Roth.
– Na sua opinião, qual deve ser o papel da biblioteca na escola?
- Da vossa, como de todas, deve ser fazer das crianças leitores. O papel da biblioteca, o papel principal de uma biblioteca é ensinar a ler. Claro que vocês já chegam aqui a saber ler, mas a saber ler o elementar, um código, alguns livros… Ser muito competente a ler, saber ler interpretando muito bem, que é para depois vocês poderem escolher o que é que gostam de ler, quando gostam de ler, que tipo de livros, que tipo de textos, hipertextos, documentos que vocês buscam em todos os motores de busca, vocês são a geração Google. Eu, quando digo ler, não é necessariamente ler em papel, é ser competente na leitura, é ser capaz de praticar leitura com muita competência, porque depois é isso que vos ajuda a ser melhores estudantes. Vocês entendem melhor a História, melhor a Filosofia, melhor o Português, melhor a Matemática se forem leitores rápidos, fluentes, que lêem depressa, que lêem em diagonal, que sabem distinguir o que é “palha” do que é realmente importante e isso só se consegue quando se é muito competente como leitor. E quando eu digo leitor, não estou nada a dizer que se tem que ler só livros de papel, é ter um instrumento, uma capacidade, uma habilidade, uma competência que se chama ler bem, ler muito bem, ler rápido, ler depressa, ler melhor para ler mais e ler mais para ler melhor. É isso que eu acho que a biblioteca vos deve ajudar a ser, leitores. Depois uns gostam mais da Visão, outros gostam mais da Blitz, outros gostam de futebol, outros gostam de jogar no computador, outros gostam de ler livros de banda desenhada, outros gostam de grandes romances, outros gostam de ciência. Tudo é ler. É esta competência que vos ajuda a ser melhores alunos e em particular a biblioteca escolar serve para ajudar os alunos a serem alunos com melhores aprendizagens, não quer dizer que sejam todos topo de gama, mas é cada um de acordo com a sua inteligência e com a sua capacidade de trabalho, ser um aluno que atinge os objectivos que em cada ano é suposto que os alunos atinjam. É para isto que serve a biblioteca, para ajudar nas vossas aprendizagens e na vossa capacidade de viver com mais liberdade.
– Acha que é importante as bibliotecas estarem bem organizadas?
- Achas que, se eu não achasse, estava aqui há 14 anos? Mas acho que é importante estarem organizadas porque isto é como em qualquer coisa na nossa casa. Coisa desorganizada é coisa perdida. Já viste se tu fores pôr as peúgas no armário dos remédios do quarto de banho ou na despensa da mercearia? Era uma trabalheira para encontrar! Poupa energia, as rotinas fazem-nos ganhar tempo. Hás-de reparar que as pessoas que não têm tempo para nada normalmente são pessoas muito desorganizadas. Não têm rotinas, não têm tempo para nada! Dá o mesmo trabalho fazer bem ou mal, agora não sou escrava disso! Reconheço que, se calhar, é engraçado encontrar umas peúgas num sítio inimaginável, mas por princípio acho que organizar, ter um catálogo, saber procurar, saber que existem lugares certos onde estão certas secções da biblioteca é uma vantagem. A organização é fantástica.
– Do nosso distrito, qual é a biblioteca escolar que considera mais funcional ou melhor organizada?
- Ah, isso não digo, porque tenho vergonha! Mas devo dizer-te que tenho muita alegria e uma grande satisfação de, num conjunto de duas mil e tal bibliotecas que integram o programa da Rede de Bibliotecas Escolares, dizer que há muitas boas, nas quais se inclui a vossa.
– Que imagem tem sobre a biblioteca da nossa escola?
- Acabei de te responder. Óptima! Agora, para ter ainda melhor imagem tinha que fazer aqui um grande inquérito aos leitores. A professora-bibliotecária diz que estão a fazer a avaliação do próprio trabalho da biblioteca, mas em princípio, pela organização, pelo aspecto, pelo facto de a biblioteca ser assim muito franca para a rua, para mostrar que existe aqui, a própria ideia de ter aqui um conjunto de meninas, por acaso só raparigas, não sei se o sexo masculino perdeu a capacidade leitora, só isso mostra que a biblioteca trabalha bem, pensa uma coisa que se adequa à sua funcionalidade. Parabéns!
– O que poderíamos melhorar na nossa biblioteca?
- Para isso eu tinha de estar mais tempo cá para ver, posso ser precipitada a dizer, mas vou dizer-te uma ou duas coisas, que já disse à professora responsável pela vossa biblioteca. Por exemplo, acho que os computadores devem estar em mais sítios da biblioteca, não só aquela ilha, como devia haver um ou outro computador lá ao fundo, para que todas as formas de ler estejam mais misturadas. Eu pessoalmente gosto mais desse ambiente. Acho bem que haja uma concentração, porque normalmente é uma zona mais barulhenta e devem estar um pouco afastados, mas devia haver mais um computador aqui, outro ali, seja portátil ou de secretária. Gosto sempre que haja bastantes revistas. Eu acho que as revistas são uma boa ponte para os que são mais resistentes a ler, que muitas vezes chegam aqui para chamar os que gostam de ler (são os clientes que acham que são muito modernos por não ler, que agora são normalmente os rapazes! Acham que são muito modernos por não ler! Não são nada, mas está bem!) e então há aqui umas revistas de desporto, umas revistas que às vezes chamam mais e que algumas pessoas gostam de ler. Gosto sempre que nas bibliotecas existam. Entre ontem e hoje visitei para aí umas 10 bibliotecas, já não sei bem! Em termos comparativos, a vossa até é das melhores que eu vi. Já acabou? Obrigada pela entrevista!
– Nós é que estamos agradecidas. Muitas felicidades!
